sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Selo Postal de Soren Kierkegaard

 1955 The 100th Anniversary of the Death of Søren Kierkegaard


1955 - The 100th Anniversary of the Death of Søren Kierkegaard - Philosopher and Theologian 

11. Novembro WM: Nada 
 Tamanho da Folha: 50 
 Desenho: Viggo Bang 
 Gravura: Bent Jacobsen 

Busca de Artigos sobre o filósofo Kierkegaard no Google

Fazendo um pesquisa no Google dia 16 de Dezembro de 20015.

Buscando "artigos de kierkegaard pdf"

O resultado desta pesquisa  é que foi encontrado pelo servidor da Google artigos de filosofia e psicologia, e tese de mestrado diferentes autores, de vários lugares do Brasil.
Falando sobre Kierkegaard e seus Conceitos
















Kierkegaard explicado de forma simplificada

Trecho extraído do livro 

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 4. ed., rev. São Paulo: Moderna, 2009. 479 p.

p: 195 a 196.


No final do século XIX e início do seguinte, a crise da razão delineou-se mais claramente e repercutiu em todo o século XX, o que levou à necessidade de se repensar a filosofia. Pensadores de influência marcante, como os alemães Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche e o dinamarquês Soren Kierkegaard, são alguns dos que puseram à prova os alicerces da razão.

Kierkegaard: razão e fé

Soren Kierkegaard (1813-1855), pensador dinamarquês, é um dos precursores do existencialismo contemporâneo. Dentre suas obras, destacamos Temor e tremor, O conceito de angústia, Migalhas filosóficas.
Severo crítico da filosofia moderna, Kierkegaard afirma que desde Descartes até Hegel o ser humano não é visto como ser existente. mas como abstração -reduzido ao conhecimento objetivo -, quando na verdade a existência subjetiva, pela qual
o indivíduo toma consciência de si, é irredutível ao pensamento racional, e por isso mesmo possui valor filosófico fundamental.
A esse respeito, o professor Benedito Nunes completa:
Não se diga, porém que ela [a existência] é incognoscível. Ao contrário, dada a imediatidade, para o homem, entre ser e existir, o conhecimento que temos da existência é fundamental, prioritário. O homem se conhece a si mesmo como existente. Esse conhecimento, inseparável da experiência individual, não transforma a existência num objeto exterior ao sujeito que conhece.'
Para Kierkegaard, a existência é permeada de contradições que a razão é incapaz de solucionar. Critica o sistema hegeliano por explicar o dinamismo da dialética por meio do conceito, quando deveria fazê-lo pela paixão, sem a qual o espírito não receberia o impulso para o salto qualitativo, entendido como decisão, ou seja, como ato de liberdade. Por isso é importante na filosofia de Kierkegaard a reflexão sobre a angústia que precede o ato livre.
A consciência das paixões leva o filósofo -e também teólogo -a meditar sobre a fé religiosa como estágio superior da vida espiritual. Para ele, a mais alta paixão humana é a fé. É ela que nos permite o "salto no escuro" que é o "salto da fé". Mas ela é, também, uma paixão plena de paradoxos. Como exemplo, o filósofo cita Abraão, personagem do Antigo Testamento que se dispõe a sacrificar o próprio filho para obedecer à ordem divina: não porque a compreendesse, mas porque tinha fé. O estágio religioso é para Kierkegaard o último de um caminho que o indivíduo pode percorrer na sua existência, sendo superior inclusive à dimensão puramente ética .


A história de Abraão é relatada no livro do Gênesis. Kierkegaard, em Temor e tremor, pergunta-se o que teria levado Abraão a transgredir a sua virtude de pai, que "deve amar o filho mais do que a si mesmo". Ele o faz não para salvar um povo ou apaziguar a ira dos deuses, mas porque Deus lhe exigiu essa prova de fé, que ele aceita,
apesar do absurdo e do seu conflito entre o dever para com o filho e o
dever para com Deus. Com seu ato, transcendeu a ética. Um anjo deteve sua mão no momento final. Reflita com um colega a respeito da  hierarquia entre ética e religião.
 O que você faria no lugar de Abraão?





Fonte:Rembrandt Abraham en Isaac, 1634.jpg. From Wikimedia 

Solidão e Angústia em Kierkegaard - História da filosofia col. Os Pensadores

ABRÃO, Baby Siqueira. História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999. 480 p. (Os pensadores)


Solidão e Angústia em Kierkegaard  p: 404 -410


Filosofo ou religioso ?

A Posição de kierkegaard leva algumas pessoas a levantar duvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. Para elas, trata-se-ia muito mai de um pensador religioso do que um filósofo.Para além das minucias que essa distinção envolveria , cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de kierkegaard. Pode-se perguntar, por exemplo quais as questões fundamentais que ele intencionalmente deu a sua obra. 
Estamos habituados a ver, na raiz das tentativas filosoficas que se deram ao longo da história, razões da ordem do conhecimento , da politica, da moral.Em kierkegaard não encontramos, estritamente , nenhuma relação dessas motivações tradicionais.Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época -em especial à de Hegel. Não se trata de questionar as incorreções ou as inconstâncias do sistema hegeliano.Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa.
Para Hegel, o individuo é uma totalidade sistemática que ultrapassa e na qual, ao mesmo tempo,ele encontra sua realização.O individual se explica pelo sistema, o particular pelo geral. Em kierkegaard há um forte sentimento da irredutibilidade do individuo, de sua especificidade  e do caráter insuperável de sua realidade. Não devemos buscar o sentimento do individuo numa harmonia racional que anula as singularidades, mas, sim na afirmação radical da própria individualidade.
De onde provém, no entanto, essa defessa arraigada daquilo que é único? não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel, mas um concepção muito profunda da situação do homem,enquanto ser individual, no mundo e perante aquilo que ultrapassa o infinito, a divindade . A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico, mas como solidão caraterística do homem que se coloca como finito perante o infinito. A individualidade define a existência. 
Para Kierkegaard , o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude, porque a vê como um etapa de algo maior, cujo sentido é infinito.
Ora, comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição, é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por finalidade que a partir de uma dimensão sobre humana, dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo.
Mas o homem e que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos , mais precisamente um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar:a fé. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente ; tampouco é um estágio provisório que dure apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão. É, definitivamente , um modo de existir. 
E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo.O paradoxo do Deus feito homem e o absurdo das circunstância do advento da verdade.
Cristo, enquanto Deus tornado homem, é o mediador entre homem e Deus. É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. Cristo é portanto o fato primordial para compreensão que o homem tem de si. Mas o próprio Cristo é incompreensível. Não há portanto uma mediação conceitual , algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade de. A mediação é o cristo vivo, histórico, datado, e o fato igualmente incompreensível do sacrifico na cruz . Aqui se situam as circunstancias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não foi revelada com as pompas co conceito e do sistema. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso.
O acesso à verdade suprema depende pois da crença no absurdo, naquilo que São Paulo já chamado de "loucura". No entanto, é o absurdo que possibilita a Verdade. Se permanecesse a distância infinita  que separa Deus e o homem, este jamais teria acesso à Verdade. Foi a mediação do paradoxo  e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. Por isso devemos dizer:creio porque é absurdo. Somente desta maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto.
Não há, portanto, outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade, o aprofundamento  da subjetividade. Isso porque a individualidade  autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse sentimento, jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção, e consequentemente , da mediação do Cristo.


O Sofrimento necessário 

A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário, somente aprofundando a subjetividade  e a culpa  a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original  de nossa natureza: o pecado original. E essa compreensão irradia luz sobre a redenção  e a graça, igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos , ou seja, de posse da verdade humana do cristianismo. A autêntica subjetividade, insuperável modo de existir, se realiza na vivência da religiosidade cristã.A subjetividade em kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época.
Seu Profundo  a-histórico tem a ver, mais do que com essa característica do romantismo , com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. O fato da redenção , embora histórico,possui uma dimensão que o torna referencia intemporal para vivenciar a fé.O cristão é aquele que se continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz.Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo  de sua época , principalmente o protestantismo dinamarquês, penetrando segundo ele, de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso minimiza a distancia entre Deus e o Homem  e sufoca o sentimento de angustia que acompanha a fé.
Essa angustia no entender de kierkegaard , estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abrão. Esse relato bíblico indica a solidão  e o abandono do individuo voltado unicamente para a vivencia da fé. O que Deus pede a Abraão - que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé - é absurdo e desumano segundo a ética dos homens.
Não se trata, nesse caso , de optar entre dois códigos de ética, ou entre dois sistemas de valores. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do finito. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. Tudo está suspenso, exceto a relação com Deus.

O salto da Fé

Abraão  não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos ( a cidade, a comunidade), como no caso da tragédia grega. Nada esta em jogo ,a  não ser ele mesmo e a sua fé. Deus não esta testando a sabedoria de Abraão, da mesma  forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon.A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito.
Mas, caso o sacrifício se estivesse consumado Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humano. Continuaria sendo o assassino de seu filho. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício  e não obteria  resposta. Do ponto de vista humano, a duvida permaneceria para sempre. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto, âmbito em que o entendimento é cego. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. A fé representa um salto, a ausência de mediação humana, precisamente porque não pode haver transição  racional entre o finito e o infinito. A crença é inseparável da angustia, o temor de Deus é inseparável do tremor.
Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé, ela não pode ser elucidada pelo conceito. este jamais daria conta das tensões e contradições  que marcam  a vida individual. Existir é existir diante de Deus, e a incompreensibilidade da finitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade de Cristo, que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. A fé reúne a reflexão e o êxtase, a procura infindável e a visão instantânea da verdade; o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação, já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo . Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões , que afinal são derivadas  de estar o finito e o infinito em presença um do outro ,  não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. A filosofia deve ser imanente à vida. A especulação desgarrada da realidade concreta  não orientará  a ação, muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos , mas por alternativas e saltos.

Data de publicação e títulos das obras de Kierkegaard

OBRAS  KIERKEGAARD - FONTE  ONLINE .Wikipedia

  • (1840) O Conceito de Ironia constantamente Referido a Sócrates
  • (1843) Enten - Eller (Ou isso, ou aquilo: um fragmento de vida) . inclui Diário de um Sedutor
  • (1843) Dois Discursos Edificantes (1843)
  • (1843) Temor e Tremor
  • (1843) Três Discursos Edificantes (1843)
  • (1843) A Repetição
  • (1843) Quatro Discursos Edificantes (1843)
  • (1844) Dois Discursos Edificantes (1844)
  • (1844) Três Discursos Edificantes (1844)
  • (1844) Migalhas Filosóficas
  • (1844) O Conceito de Angústia
  • (1844) Quatro Discursos Edificantes (1844)
  • (1845) Estádios no Caminho da Vida
  • (1846) Post Scriptum Final Não-Científico às Migalhas Filosóficas
  • (1847) Discursos Edificantes em Diversos Espíritos
  • (1847) As Obras do Amor
  • (1848) Discursos Cristãos
  • (1848, publicado em 1859) Ponto de Vista Explicativo da minha Obra como Escritor
  • (1849) O Desespero Humano
  • (1849) Três Discursos para a Comunhão de Sexta-feira
  • (1850) Prática do Cristianismo

Introdução- Kierkegaard Coleção Os Pensadores




KIERKEGAARD, Soren. Diário de um sedutor; Temor e tremor ; O desespero humano. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 279 p. (Os pensadores )


ESTE VOLUME CONTÉM AS SEGUINTES OBRAS:
O DIÁRIO DE UM SEDUTOR (1843)

A obra retrata aquilo que Kierkegaard entende por modo de vida
estético, caracterizado pelo hedonismo romântico e sofisticado. O
sedutor é um indivíduo que escolhe o mergulho na paixão, as
contradições da existência amorosa. Escolhe como finalidade da vida
o prazer, gozando pessoalmente a estética e gozando esteticamente
sua própria personalidade.

TEMOR E TREMOR (1843)

O episódio bíblico de Abraão, que se dispõe a matar o filho Isaac em
obediência à ordem divina, serve de tema à reflexão de Kierkegaard
sobre a natureza da fé. E é fundamentalmente como paradoxo que a
fé se revela: “paradoxo capaz de fazer de um crime um ato santo e
agradável a Deus, paradoxo que devolve a Abraão o seu filho,
paradoxo que não pode reduzir-se a nenhum raciocínio, porque a fé
começa precisamente onde acaba a razão”.

O DESESPERO HUMANO (DOENÇA ATÉ À MORTE)

A dialética do desespero — doença que marcaria o fundo da
consciência do cristão até à morte — é analisada por Kierkegaard,
em suas múltiplas facetas: o desespero inconsciente de ter um eu; o
desespero que não quer, e o desespero que quer ser ele próprio; a
relação entre desespero e pecado.

Tradução de: Carlos Grifo, Maria José Marinho, Adolfo Casais
Monteiro.
Consultor da Introdução: Marilena de Souza Chauí





INTRODUÇÃO DO LIVRO OS PENSADORES KIERKEGARRD



“Minha vida não será, apesar de tudo, mais do que uma existência poética.” Essa afirmação do filósofo dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard revela, segundo György Lukács (1885-1970), seu heroísmo, sua honestidade e sua tragédia. Para Lukács, o heroísmo de Kierkegaard residiu em ter desejado criar formas a partir da vida; sua probidade, em ter seguido até o fim o caminho escolhido; e sua tragédia, em ter desejado viver aquilo que jamais poderia ser vivido.
Régis Jolivet afirma que o pensamento de Kierkegaard formou-se,“não tanto por assimilação de elementos estranhos, mas sobretudo através de uma luta de consciência, cada vez mais intensa e cada vez mais exigente, perante as condições, não já da existência em geral, mas do seu próprio existir”. Ainda segundo Jolivet, a filosofia de Kierkegaard é precisamente ele mesmo, e ele mesmo, não fortuitamente e, de certo modo contrariado, mas ele mesmo voluntária e sistematicamente, a tal ponto que o “existir como indivíduo” e a consciência desse existir chegaram, a ser, para ele,condição absoluta da filosofia e até sua única razão de ser.


A existência e a razão

Considerado por muitos historiadores como o primeiro representante da filosofia  existencialista. Søren Aabye Kierkegaard nasceu a 5 de maio de 1813, em Copenhague, filho de Michael Pedersen Kierkegaard, então com 56 anos de idade, e de Anne Srensdatter, de 44 anos. Seu pai era um agricultor da Jutlândia ocidental que se mudou para Copenhague, onde enriqueceu como comerciante de lã. A primeira infância, Kierkegaard passou-a toda na companhia do pai, que insistia no aprendizado rigoroso do latim e do grego e inculcou no filho uma devoção pietista atormentada pela ansiedade.
Desperto, desde muito cedo, para um tipo de vida imaginativa, pois seu pai exigia que representasse estórias e cenas teatrais,Kierkegaard passou a sentir a vida como um palco permanente para a devoção religiosa.
A profundidade do sentimento religioso, que o acompanhou desde a infância, levou-o a ingressar no curso de teologia da Universidade de Copenhague. Nessa escola, Kierkegaard tomou conhecimento do sistema filosófico de Hegel (1770-1831), cuja influência estendia-se a todos os setores intelectuais e até mesmo à teologia protestante, que estava impregnada de seu racionalismo.
Inicialmente, Kierkegaard deixou-se seduzir pelas sutilezas da dialética hegeliana; a lógica parecia-lhe uma “apaixonante voluptuosidade”. No entanto, logo começou a se sentir impressionado pela forma como o sistema hegeliano se arrogava o direito de ignorar a existência concreta do indivíduo. Por causa disso Kierkegaard passou a contestar energicamente o hegelianismo. Para o pensador dinamarquês, a existência humana não pode deixar-se dissolver na pura conceituação intelectual.
Jean-Paul Sartre (1905 — ), analisando as relações entre os dois pensadores, afirma: “O que opõe Kierkegaard a Hegel é que para o último o trágico de uma vida é sempre superado. O vivido se dissolve no saber”. E acrescenta o filósofo existencialista francês: “‘Para Kierkegaard, pouco importa que Hegel fale de ‘liberdade para morrer’ ou que descreva corretamente alguns aspectos da fé, o que ele critica no hegelianismo é o fato de negligenciar a insuperável opacidade da experiência vivida. Não é somente, nem sobretudo no nível dos conceitos que está o desacordo, mas antes no da crítica do saber e da delimitação de seu alcance”.


A angústia da sensualidade

A filosofia de Hegel opunha-se ao desejo intelectual mais profundo de Kierkegaard: “uma verdade que seja verdadeira para mim” ou “a idéia pela qual eu possa viver e morrer”. Por outro lado, o luteranismo então imperante na Dinamarca também se opunha à sua concepção da verdade filosófica. Kierkegaard sentia que a Igreja luterana estava por demais burocratizada e afastada da religiosidade interior, que considerava essencial para o verdadeiro cristão. O jovem Kierkegaard, obcecado pelo sentimento do pecado e pela angústia da sensualidade que o assaltavam nessa época, tornou-se então um “filósofo solitário”, no dizer de Jean Wahl, e abandonou a religião. Ao mesmo tempo, entregou-se a uma vida desregrada de prazeres, gastando altas somas em roupas, comidas e bebidas. Esse período crítico de sua juventude iniciou-se no mesmo ano da morte de seu pai (1838) e teve evidentes relações com esse triste acontecimento.Passados os primeiros momentos de crise, Kierkegaard resolveu retomar os estudos universitários e tornar-se pastor. Em 1841, terminou a tese Sobre o Conceito de Ironia e pregou o primeiro sermão.Um ano antes, ficara noivo de Regine Olsen, jovem de 17 anos de idade. Contudo, à medida que se definia a singularidade de sua vocação, Kierkegaard começou a perceber que não seria capaz de partilhar sua vida com outra pessoa; ao mesmo tempo, achava que não lhe cabia o papel convencional de pastor protestante. 
Decidiu então romper o noivado, interpretando a decisão como conseqüência de uma vocação filosófica e religiosa. “De fato — comenta Lukács — mesmo Regine, que ele havia abandonado, que em sonho transformara em um ideal além de seu alcance, não pode ser para Kierkegaard mais que uma etapa, porém uma etapa que o conduziu de maneira mais acertada a seu objetivo.” Com o rompimento do noivado, Regine Olsen sentiu-se ferida em seu orgulho de mulher e casou-se com Fritz Schlegel, posteriormente governador das Índias Ocidentais Holandesas.Kierkegaard passou a viver solitariamente sua realidade singular e incomunicável, declarando que sua vida deveria ser “reflexão do princípio ao fim”. Em carta a Peter Lind, chamava a atenção para a vantagem de sentir-se um tanto abandonado por parte dos amigos.
“O silêncio deles — afirmava — é nitidamente proveitoso para mim,porque me obriga a fixar a vista no meu eu; porque me estimula a aprender esse eu que é o meu; porque me obriga a manter-me fixo na infinita instabilidade da vida e a voltar para mim o espelho côncavo com que dantes procurava abarcar a vida fora de mim mesmo. Esse silêncio agrada-me porque me sinto capaz desse esforço e com coragem para segurar o espelho, mostre-me ele o que mostrar, o meu ideal ou a minha caricatura.” Homem problema para si mesmo, Kierkegaard nunca deixou de se interrogar e de se analisar a si próprio. Para ele, a filosofia resumia-se em tomar consciência das exigências absolutas feitas a qualquer pessoa que queira viver uma existência verdadeiramente autêntica.


A existência autêntica

Apesar de viver isolado, Kierkegaard polemizou violentamente com personalidades dinamarquesas da época. A principal dessas polêmicas levou-o a atacar de maneira impiedosa as autoridades da Igreja luterana da Dinamarca. Inconformado com as disparidades entre o caráter introspectivo da fé cristã e o conformismo social e político da Igreja estabelecida, escreveu diversos artigos contra o primaz luterano Hans Larsen Martensen (1808-1884), que seguia uma orientação hegeliana Coerentemente com suas posições,Kierkegaard recusou-se a receber os sacramentos de pastor: “pastores são oficiais do rei; oficiais do rei nada têm a ver com a cristandade”.
Ao lado das polêmicas que marcaram os anos seguintes ao rompimento de seu noivado, Kierkegaard dedicou-se intensamente à redação de inúmeras obras, muitas das quais vindas a público sob curiosos pseudônimos: Victor Eremita, Johannes de Silentio,Constantin Constantio, Johannes Climacus, Nicolaus Notabene,Virgilius Haufniensis, Hilarius Bogbinder, Anti-Climacus. Entre essas obras, salientam-se Sobre o Conceito de Ironia (1841),Discursos Edificantes (1843/44), Ou, Ou. Um Fragmento de Vida
(1843), Temor e Tremor (1843). A Repetição (1843) O Conceito de Angústia (1844), Etapas no Caminho da Vida (1845). O Desespero Humano (Doença até à Morte) (1849).


Ou estético ou ético


“A vida subjetiva, na própria medida em que é vivida, não pode jamais ser objeto de um saber; ela escapa, em princípio, ao conhecimento... Essa interioridade que pretende afirmar-se contra toda filosofia, na sua estreiteza e profundidade infinita, essa subjetividade reencontrada para além da linguagem, como a aventura pessoal de cada um em face dos outros e de Deus, eis o que Kierkegaard chamou de existência.” Com essas palavras Jean-Paul Sartre sintetiza todo o caráter da filosofia de Kierkegaard; uma filosofia da existência, que o pensador dinamarquês construiu, em oposição a todos os sistemas racionalistas, especialmente ao sistema hegeliano. No século XX, alguns estudiosos procuraram mostrar
como se encontra um “existencialismo” nas obras de Hegel,sobretudo em sua Fenomenologia do Espírito.
Segundo Merleau-Ponty, por exemplo, pode-se falar de um existencialismo nessa obra,no sentido de que nela Hegel não se propõe a encadear conceitos,mas revelar a lógica imanente da experiência humana; de maneira mais precisa, haveria um existencialismo em Hegel no sentido de que ele não concebe o homem como consciência que possui seus próprios pensamentos, mas como vida que procura compreender a si mesma.
Kierkegaard, porém, não pensava no Hegel de 1807 (data da publicação da Fenomenologia do Espírito), mas no Hegel do fim da vida, aquele que tratava a história como desenvolvimento visível de uma lógica, na qual a experiência individual da vida humana subordina-se à vida própria das idéias. 
Assim, Kierkegaard combateu a filosofia hegeliana como um sistema que esvazia a existência humana de todo caráter concreto, dissolvendo-a em puros conceitos racionais. O filósofo dinamarquês defendia a tese de que qualquer esquema particular de conceitos constitui apenas uma possibilidade entre outras, cuja concretização não depende dos próprios conceitos, mas do indivíduo. Assim, o que este faz não depende do que ele compreende, mas do que ele quer, ou seja, do que ele escolhe.
A noção de “escolha” constitui uma das idéias fundamentais da filosofia de Kierkegaard. Ela seria o próprio núcleo da existência humana. Para Kierkegaard, o ponto de vista hegeliano, segundo o qual a existência humana se desenvolve logicamente no interior de esquemas conceituais, não constitui apenas um erro intelectual mas, sobretudo, uma tentativa de dissimular os verdadeiros fatos e rejeitar as responsabilidades implicadas pela escolha. “A essência do conceito kierkegaardiano de escolha — como diz Alasdair MacIntyre — reside em que esta última é despida de critérios.” Em outras palavras, para Kierkegaard não existem quaisquer razões lógicas que obriguem o homem a optar por esta ou aquela forma de vida. 
Uma aplicação concreta da doutrina kierkegaardiana da escolha encontra-se em sua obra Ou, Ou. Um Fragmento de Vida,publicada em 1843. Nesse livro, Kierkegaard analisa os modos de vida estético e ético. O modo de vida estético seria caracterizado pelo hedonismo romântico e sofisticado, ao qual se contrapõe, não apenas a dor, mas, sobretudo, o tédio. Em Diário de um Sedutor, o personagem central penetra no mais fundo abismo da paixão, “escolhendo” viver a existência amorosa em todas as suas contradições. Retrato característico desse tipo de conduta encontra-se em outra obra de Kierkegaard, Purifiquem Vossos Corações, na qual o autor interroga sobre aquele que escolheu o modo de vida estético: “Vejam-no em sua temporada de prazer: não almejou ele a um prazer depois do outro, variando sua senha?” 
O protagonista da opção estética tenta realizar todas as possibilidades, mas estas não lhe proporcionam mais do que uma atualidade transitória. O mais importante, porém, está em que a ameaça do tédio é perpétua, porque ele exige constante defesa. Conseqüentemente, a busca estética de novidades conduz, em última instância, ao desespero, tema da última obra, O Desespero Humano (Doença até à Morte).
O mesmo absurdo que está na raiz da conduta estética encontra-se também no modo de vida ético. Em Temor e Tremor (1843), Kierkegaard relata várias versões da história de Abraão e Isaac, e em todas elas se encontra o absurdo que conduz ao abismo da fé. O modo de vida ético contrasta com a conduta estética, instaurando-se nos terrenos do dever,
das regras universais e de todas as exigências e tarefas de caráter incondicional. Segundo Kierkegaard, para aquele que se encontra no estágio ético, a coisa mais importante não é saber se ele é capaz de contar nos dedos todos os deveres mas se sentiu, alguma vez, a intensidade do dever, de tal modo que sua consciência esteja plenamente garantida da eterna validez de seu ser. 
Nessa ordem de idéias, é fundamental o papel desempenhado pelo sentimento na teoria kierkegaardiana da escolha ética. A intensidade de sentimento parecia tão importante a Kierkegaard que ele considerava a paixão como aquilo de que seu tempo carecia mais profundamente.
Em Ou, Ou, o confronto entre a opção estética e a opção ética é apresentado nas figuras de um jovem e um velho, compondo dois caracteres contrapostos, entre os quais o leitor sente-se obrigado a decidir. Mas Kierkegaard mostra claramente suas preferências pelo ético. Segundo a análise de Alasdair MacIntyre, o exame da alternativa levanta uma série de questões no que diz respeito à consistência da argumentação do autor. Kierkegaard sustenta que não existe qualquer critério objetivo para decidir entre as duas opções, e, ao mesmo tempo, favorece nitidamente o estágio ético, mostrando ser este superior ao primeiro. Certas passagens sugerem que o indivíduo que escolhe a conduta estética não faz uma verdadeira escolha. Admitir isso, para MacIntyre, seria negar a própria doutrina kierkegaardiana da ausência de critérios na escolha.


O paradoxo da religião

Assim como a conduta estética levada às últimas conseqüências culmina no desespero, a etapa ética, atingindo seus limites supremos, faz surgir a contradição. A passagem do ético ao religioso torna-se então necessária. Em Temor e Tremor (1843), Kierkegaard afirma que, quando o pecado entra em discussão, a ética fracassa, pois o arrependimento (implícito no sentimento de pecado) é a suprema expressão da ética, mas, ao mesmo tempo, constitui a mais profunda contradição ética. A solução da contradição somente seria possível mediante a passagem para outro tipo de, conduta: a etapa religiosa.
Exemplo de passagem do ético ao religioso, segundo Kierkegaard, encontra-se no episódio bíblico referente a Abraão e Isaac. Quando Deus exige de Abraão o sacrifício de seu filho Isaac, Abraão, dentro do nível ético, está diante da necessidade de cometer uma transgressão absolutamente proibida. Abraão não tem saída a não ser pelo salto do ético ao religioso. Em outros termos, Abraão deve saltar para a fé, aceitando o absurdo da exigência divina e concordando com uma suspensão do ético, em favor do religioso. Em tais situações críticas, a escolha que o indivíduo sente-se obrigado a fazer independe de quaisquer critérios racionais, isto é, as regras gerais e universais não podem ajudá-lo. Apesar disso, segundo Kierkegaard, existem algumas experiências, à margem do ético e do religioso, que podem servir de indicação, Uma delas é o desespero, outra é a ansiedade. Kierkegaard descreve-as em O Conceito de Angústia (1844), titulo que, para Jean Wahl, constitui uma provocação. Para Jean-Paul Sartre, “a angústia não pode, em caso algum, ser objeto de um conceito e, numa certa medida, enquanto ela se encontra na fonte da livre opção temporalizante, ela é o fundamento não-conceitual de todos os conceitos”.
Assim, na interpretação de Sartre, é necessário poder compreender que a palavra “angústia” é a universalização do singular e, portanto, um falso conceito. Este remete à universalidade enquanto que a angústia “reconduz para o Único, seu fundamento”. Por outro lado, Alasdair MacIntyre é de opinião que o desespero tem a mesma orientação que a angústia. O homem, em estado de desespero, verifica que se desespera não de fatos contingentes, mas de si mesmo. O desespero kierkegaardiano constituiria, portanto, o fato de o indivíduo ver-se confrontado com a vacuidade, o vazio, que não pode ser preenchido nem pelos prazeres estéticos, nem pelas obrigações éticas.
Em A Repetição (1843), Kierkegaard mostra que o homem não pode repetir cada uma de suas experiências estéticas (e éticas), a fim de gozar um prazer passado. A repetição, contudo, é possível no plano do futuro, na aceitação da vida como um recomeço, conversão que se abre ao sentimento do prodigioso e do divino; em outros termos, a repetição só é possível como impulso de submissão religiosa ao desconhecido, e radica no próprio absurdo de sua impossibilidade como recomposição de experiências estéticas e condutas éticas do passado. Por essa razão, toda a filosofia de Kierkegaard centraliza-se no significado e nas complexas implicações do fato de se ser cristão.
 Toda a sua vida constituiu uma intensa experiência da contraposição entre aquilo que considerava ser o cristianismo em seu significado mais profundo e as roupagens exteriores com as quais se revestia a Igreja luterana de seu tempo.
Para Kierkegaard, a vivência mais profunda do cristianismo é a vivência e a certeza da fé. Trata-se de uma certeza muito peculiar,pois correspondente a uma incerteza objetiva e, conseqüentemente, constitui um paradoxo e um absurdo. A realidade da subjetividade implicada na fé consistiria em algo finito, mas dependente de uma infinitude essencial que é a infinitude de Deus. Como conciliar as duas é o grande paradoxo do cristianismo. Afrontar esse paradoxo, segundo Kierkegaard, implica necessariamente “suspender o ético” e entregar-se totalmente ao religioso. Tal entrega não conduz à tranqüilidade mas, ao contrário, a um permanente conflito, pois a eternidade e a infinitude de Deus são ao mesmo tempo, absolutamente reais e absolutamente incompreensíveis.
Por isso, Kierkegaard concluiu que não se pode propriamente falar de Deus ou, em outras palavras, formular uma teologia. Impõe-se, portanto, uma transformação na própria linguagem empregada pelo homem: a razão deve ser posta de lado, dando lugar à súplica e até mesmo à imprecação.





BIBLIOGRAFIA

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Kierkegaard (1813-1855) .50 autores -chaves de filosofia ...e seus textos incontornáveis

KATY GRISSAULT, Joao Batista Kreuch .50 autores -chaves de filosofia ...e seus textos incontornáveis .Petrópolis RJ:Vozes,2012. p:288

"Este livro procura ser um guia para a produção filosófica, visando se destinar a quem desejam adquirir um conhecimento fundamental, relembrar o que aprenderam, consultar informações ou, ainda, adquirir uma base mínima da cultura filosófica". 


35 -Kierkegaard (1813-1855) p: 205-208.

Kierkegaard (1813-1855)
“Trata-se de encontrar uma verdade que seja para mim, e encontrar a ideia pela qual eu queria viver e morrer” (Jornal).

Uma estranha educação:
Søren Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhague. Seu pai, profundamente protestante, tem certeza de dever ser punido por seus pecados pela desgraça de seus filhos. Kierkegaard tem o sentimento de éter nascido sob o sinal da culpa e destinado a um futuro sombrio. Sua infância ocupa uma função essencial à constituição de sua filosofia existencial.

Da perversão a Angústia:
 A vida de Kierkegaard, trágica é permeada de fracassos: após um período de excessiva perversão, ele abandona o caminho da perdição em prol de uma vida mais regrada, porem atormentado pela angustia noivo ele renuncia ao casamento com sua prometida; após os estudos de teologia, abandona seu primeiro projeto, torna-se pastor.
Publica inúmeras obras, muitas vezes utilizando-se de pseudônimos cada um deles revelando uma faceta diferente da verdade e da subjetividade: O Conceito de Angústia (1844), Migalhas filosóficas (1844) O Desespero Humano (1850). Ele conhece a celebridade , mas de vê igualmente no coração de virulentas polemicas.Adversário do cristianismo dos “Padres funcionários”, critica com veemência a igreja  oficial em sua obra, “A escola do Cristianismo”(1850).


Teses essências:
Oposto ao Hegelianismo dominante em sua época e ao espírito sistêmico, Kierkegaard é o pensador da existência e da subjetividade. Precursor do existencialismo do século XX, ele exerce enorme influência sobre pensadores como Gabriel Marcel, Karl Jaspers, Heidegger, ou ainda Sartre.

A subjetividade é a verdade:
Contra o ideal hegeliano de um saber objetivo e abstrato sistematizado, Kierkegaard afirma a primazia da existência individual. A “subjetividade é a verdade”: não pode haver um sistema da existência, pois a existência é a vivencia humana concreta e subjetiva, verdadeira manação do sujeito que não pode ser contido em um sistema fechado. “Existir significa, antes de tudo ser um individuo” (post-scriptum às migalhas Filosóficas). Quer dizer, um ser único, singular, livre, que não pode ser pensado, uma vez todo pensamento apenas apreende o geral. Contraditória e ambígua, a vida não pode ser reduzida ao conceito que pretende explica-la.
Contrariamente ao que afirma Hegel, o individuo que não recebe sua significação da história universal. Não se pode falar da vida em geral, porque o que está dado, o que existe, é sempre uma existência particular: minha existência, que eu devo compreender e à qual devo, eu próprio, dar sentido. O individuo subjetivo é a origem de sua própria, verdade essa produzida por sua ação. Não há nenhuma essência dada de forma antecipada ao individuo. Ele mesmo deve construí-la. Enquanto existente que se desenvolve livremente no mundo, ele se encontra diante de uma infinidade de escolhas, perante a contingência que se deve assumir na angústia.
A verdade, múltipla e mutante, é relativa ao vinculo que une o individuo só seu criador, ele mesmo sendo visto em sua individualidade. Subjetividade, a verdade é também relativa: ”A consciência cria a verdade a partir de si”. A existência pode ser vivida de diversas maneiras. O individuo deve se empenhar pessoalmente, deve escolher sua maneira de viver para descobrir sua verdade.

Os três estágios da vida:
Três estágio balizam as etapas da existência.
O estágio estético designa a vida no instante, a busca de satisfação no imediatismo das sensações isenta de qualquer preocupação moral. Este estágio é encarnado especialmente pela personagem  de Dom Juan. Kierkegaard denuncia a vaidade de tal vida que se reduz ao prazer imediato.
O estágio Ético é o da vida organizada e séria do cidadão responsável, que respeita a sociedade e as leis, e se preocupa com as exigências morais. A figura de Sócrates exprime a mas alta realização desse estágio.O Ético, que pensa no geral é, no entendo, fechado em ideias totalmente fabricadas que lhe impedem caminhar rumo à verdade subjetividade  e autentica.ele esquece sua individualidade.=
Enfim, o “estágio religioso” é o estágio supremo da existência autentica durante o qual o sujeito é chamado a descobrir sua verdade no âmago da verdadeira religiosidade. Esta não designa a conformidade com a religião socialmente estabelecida , que Kierkegaard fustiga como hipocrisia ,fonte de um otimismo vulgar e de uma existência inautêntica que  submete a fé a razão .A religiosidade reside antes no vinculo único a seu criador, a fé irracional em um Deus que se fez homem.Abraão exprime essa existência religiosa quando aceita ,contra toda razão e para alem  de toda moral estabelecida de ,sacrificar seu filho Isaac.
A subjetividade religiosa é feita de uma angustia dilacerante, mas formadora, porque ela desvela o valor da unicidade. O individuo se descobre nela antes de tudo como um pecador, uma subjetividade livre e, contudo, que só pode sê-lo negando Deus, pois a afirmação de si mesmo enquanto ser finito acarreta e algum modo à negação da infinidade Divina.

A fé irredutível à razão:
A pessoa religiosa é antes de tudo, um ser apaixonado, pois é na paixão que se afirma a individualidade. O real não é racional, contrariamente ao que afirma Hegel, A fé não pode ser conceitualizada, pois ela é paixão individual e singular. Dessa forma, tudo foge as exigências da razão. A verdade é um ato de liberdade em si, não um ato resultante de uma escolha refletida, mas ato de conversão, de um salto no escuro para dentro do desconhecido: ”a liberdade consiste precisamente nesse ato de audácia que opta pela incerteza objetiva com a paixão do infinito”. Não se pode ter certeza objetiva da existência de Deus; por isso, é a fé, verdadeira escolha, que se acompanha sempre da duvida que instaura a razão.Por isso mesmo ela é apaixonada.

KATY GRISSAULT, JOAO BATISTA KREUCH. 50 autores -chaves de filosofia ...e seus textos incontornáveis .Petrópolis RJ:Vozes,2012. p: 288